A VALSA DO IMPERADOR

de Ilona Bastos

           Marta aproximou-se da janela.

Começava a anoitecer, e no céu, ainda claro na linha do horizonte, brilhavam já algumas estrelas. Ao fundo, as nuvens em fogo emanavam uma tonalidade rósea que se confundia com o azul, envolvendo toda a paisagem num ambiente de mistério: a rua em declive, os edifícios altos, o relvado e as árvores quietas e silenciosas.

A rapariga voltou-se para dentro e observou a sala de estar.

As sombras avançavam rapidamente, conquistando, sem resistência, o chão, os móveis e as paredes.

Aproximando-se da estante, pegou num disco ao acaso e colocou-o no gira-discos. Acendeu o candeeiro de pé, junto ao sofá, e sentou-se. Puxou para si o vestido cinzento, de lã, que estivera a coser. Retomou o trabalho, com um suspiro.

Lentamente, vindos do gira-discos, iniciaram-se os primeiros acordes de uma valsa. Marta sorriu. A Valsa do Imperador! Que alegria lhe traziam as valsas! Em catadupas de notas saltitantes, como que em passos de dança, tocavam-lhe magicamente o coração!

Marta debruçou-se sobre o vestido. Sabia que por detrás da alegria contagiante da valsa de Strauss o silêncio inundava o resto da casa deserta. Isabel, a irmã mais velha, fora visitar uma amiga que morava no andar debaixo, e a Ana, a mais novinha,  acompanhara a mãe a uma consulta médica. O pai, apesar do frio que àquela hora já empurrava as pessoas para dentro de casa, saíra para tomar o seu cafezinho costumeiro.

Na sala estava um calor agradável, e o relógio, com o seu tic-tac melancólico, acompanhava a valsa atrevida e saltitante.

 

 

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Música: Johann Strauss, Jr., A Valsa do Imperador Op.437

 

A VALSA DO IMPERADOR

de Ilona Bastos

pág.2

 

Concentrada na sua tarefa, Marta levantava e baixava o braço, num elegante bailado da agulha sobre o tecido cinzento. E preparava-se para novamente mergulhar a agulha no vestido, quando este, subitamente, lhe pareceu diferente.

Espantada, ergueu o vestido nos braços, e percebeu que este mudara de cor: de cinzento, que era, transformara-se num grená vivo e rico, com bordados a ouro!

Marta levantou-se de um pulo, assustada, mas o vestido não lhe caiu do colo nem das mãos, pois moldara-se-lhe ao corpo com elegância sem par. E, num espelho cristalino, surgido do ar, avistou a sua imagem esbelta no magnífico vestido que lhe fazia sobressair a silhueta esguia, e que, a partir da cintura, se abria numa corola de veludos, folhos e bordados, até tocar o chão.

Inexplicavelmente, o seu reflexo começou a mover-se, a dançar, numa sequência de voltas e reviravoltas, como numa agitação de sonho. Os pés deslizaram-lhe no tapete, pela alcatifa, sobre o parapeito da janela aberta para o parque, e, por fim, tocaram suavemente a relva macia.

Lá fora não fazia frio. Uma temperatura cálida penetrara no jardim. Sim, no jardim, pois a rua transformara-se num jardim imensamente florido, com os seus canteiros e carreiros,  e pequenas fontes de água fresca e murmurante! As nuvens, rosadas e aromáticas, reuniam-se à volta de um disco voador dourado e gigante, que rodopiava, emitindo, no seu rodar delirante, uma valsa de Strauss semelhante àquela que o gira-discos balbuciava, ao longe, na sala de estar.

Ao lado de Marta, dezenas, centenas de seres de longos vestidos e ricas casacas, de cabeleiras emplumadas, maravilhosas jóias e rostos belos, deslizavam, rodopiavam, bailavam ao som das notas irreverentes.

O centro de toda aquela alegria, de todo aquele sonho fantástico, era o disco dourado, que aterrara e descia agora, com suavidade, a ampla estrada de flores recortada no declive, traçando uma linha brilhante sobre o azul acetinado.

 

 

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A VALSA DO IMPERADOR

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pág.3

 

Todos dançavam e rodavam sem cansaço, sem dor e sem ruído.

Então, o disco parou e dele saltaram sete príncipes encantados, ricamente vestidos, que se juntaram à multidão rodopiante. E, no meio de toda aquela euforia, Marta sentiu, com tristeza, que só ela, no seu esplêndido vestido de baile, ficara sem par!

Não tardou, porém, que um príncipe mais belo, mais forte, mais ágil que todos os demais, surgisse à entrada do disco voador, a valsar, movendo-se com tal delicadeza que parecia ser a música por ele emanada, e que dos seus gestos e passos nasciam as notas douradas daquela valsa sublime.

Foi assim que a música se aproximou de Marta e a tomou, rica, bela, forte e ágil!

Quando deu por si, já a dança a havia induzido a percorrer o interior do fabuloso disco voador que atravessara anos e anos-luz de espaço sideral, e que agora a acolhia tão festivamente.

Anteriormente, Marta imaginara o interior de uma nave espacial semelhante ao de um submarino, tripulado por seres trabalhadores, sérios e talvez mesmo sacrificados.

Como se surpreendeu, portanto, quando o príncipe de todos os príncipes, o Imperador, a encaminhou através de salões iluminados, dourados e elegantes, semelhantes aos mais esplendorosos do nosso planeta! Ali, todos dançavam uma valsa de Strauss, todos rodopiavam numa felicidade contagiante. E, à medida que ia avançando pelos mais requintados aposentos, o Imperador dizia-lhe, numa linguagem feita de música:

“ Eis o meu palácio. Ele voa por todas as galáxias, por todos os céus. Todos estes seres são os meus súbditos, trabalham para mim. São eles que fazem o meu disco mover-se através da eternidade.

 

 

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A VALSA DO IMPERADOR

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pág.4

 

São eles que se responsabilizam pela continuidade e imortalidade do meu reino – o Reino da Música.

“Os sete príncipes que avistaste são os meus ministros. São-me imprescindíveis. Vês o mais alto? O seu nome é , e o seu traje é verde, como verdes são as plantas. O que se veste de azul chama-se , e representa o mar. Mi, o de violeta, traz a música das flores. Fá, trajando de vermelho, é a vida. Sol, de amarelo, emana luz. , de castanho, inspira-se na terra. E Si, finalmente, veste-se de preto, e simboliza a melancolia.

“Sem os meus sete ministros eu não poderia resistir ao tempo, aos séculos, às modas…

“Os outros que nos cercam, vestidos de cor-de-laranja, rosa, azul-claro e também de outros tons, são os meus auxiliares e amigos. Vão-se multiplicando e representam os tons mais fracos e mais fortes.

“Temos, ainda, e apresentar-tos-ei logo que possível, o Conde Compasso, a Duquesa Melodia, o General Tempo e o Mestre Ritmo.

“Todos vivem neste palácio e trabalham dia e noite para produzir uma forma de energia: a música. É essa energia que move o meu reino, o Reino da Música.”

Quando o Imperador terminou, haviam acabado de entrar num salão magnífico, ainda mais sumptuoso e iluminado que os anteriores.

Porém, o salão encontrava-se vazio, e em silêncio.

Talvez porque, em contraste com o resto do palácio o silêncio aí parecesse muito pesado, assim mais leve soou a Marta a música-conversa do Imperador.

“Esta sala”, começou ele, “é fundamental para o funcionamento da nave. Chamar-lhe-iam os humanos a casa das máquinas. É daqui que parte a energia vital, desde que haja o combustível necessário ao perfeito funcionamento dos meus ministros. E esse combustível é… a Inspiração!

 

 

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A VALSA DO IMPERADOR

de Ilona Bastos

pág.5

 

“É segundo a Inspiração que dirijo, intercalo, movimento os meus ministros. É ela que sensibiliza o Conde Compasso, a Duquesa Melodia, o General Tempo e o Mestre Ritmo. Compreendes como é importante a Inspiração, como necessito dela... Mas acontece… que... falta-me a Inspiração…”

Ainda o Imperador não acabara de pronunciar as últimas palavras e já Marta começara a entender o seu verdadeiro significado. Se faltava a Inspiração, não se criaria música e, sem música, a nave não voaria. Pararia no tempo e no espaço. Perder-se-ia, para sempre, no infinito!

“Quero que sejas a minha Inspiração!”, exclamou o Imperador, num súbito entusiasmo. “Fica no meu disco, no meu Reino. Viverás nesta sala, rodeada de todo o conforto, e assim fornecerás a Inspiração de que preciso.”

“Não!”, gritou Marta.

Compreendia o que significava tornar-se a Inspiração do Imperador. Equivalia a uma vida de clausura, prisioneira numa cela luxuosa, encerrada numa prisão dourada, vigiada por uma carcereiro Imperador! Seria a Inspiração de um Reino, o motivo de uma festa, a causa de uma alegria, a invisível sofredora, mencionada entre sorrisos, esquecida num cárcere a vaguear pelo infinito.

“Não, não!”, repetiu. “Quero ir-me embora.”

Num acesso, abandonou a sala e correu pelos salões fora, por entre os seres rodopiantes, em incessante valsar.

Muito perto, perseguia-a o Imperador e a música, uma valsa de Strauss, suplicante.

“Não vás, ó Inspiração! Sem Inspiração não haverá música. O meu disco tocará para sempre a mesma valsa! Escuta! Não ouves? É ainda a mesma valsa que soa… Fica, ó Inspiração!”

Mas nada detinha Marta. Seus pés mal tocavam o chão brilhante, suas pernas mal sentiam o esforço da corrida, e sob seu olhar ansioso sucediam-se salas e salões, corredores e passagens, multidões dançantes e indiferentes à sua aflição.

Atrás, seguia o Imperador, implorante, e mais a valsa que Marta já detestava. Sempre a mesma valsa!

 

 

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A VALSA DO IMPERADOR

de Ilona Bastos

pág.6

“Pára!”, insistia o Imperador. “Pára, que os meus ministros estão cansados desta valsa e em breve recusar-se-ão a fazer o meu Reino viver e voar. Fica, que já os meus amigos estão fartos desta valsa!”

Mas Marta continuava a fugir. Também ela já não tolerava aquela valsa! Também ela já a odiava!  E, na sua louca correria, atravessava novos salões, deslizava por entre dançarinos ágeis e suaves, por entre seres que pulavam e bailavam, que sorriam para o ar, acenavam alegremente, mas não a viam.

Finalmente, a moça alcançou a entrada da nave, precipitou-se para o ar livre e chegou ao jardim. Ignorando a multidão dançante que povoava o cenário da noite enluarada, Marta gritou para o céu, para a lua e para as flores:

“Fujam! Fujam da música! Fujam da valsa! Fujam do Imperador!”

Marta saltou, correu, voou. À sua passagem, as flores transformaram-se em estrada, os seres dançantes diluiram-se no ar, o vento soprou, assobiando, as nuvens escureceram e o ar tornou-se de um frio cortante.

Ao longe, distinguia-se apenas um lamento musical, tão doloroso como um lamento humano. Aos poucos, a valsa ia soando mais abafada, e o lamento, cada vez mais semelhante a um choro, mais parecido com um soluço, ressaltava no silêncio.

A menina continuou a fugir, em direcção a casa. Saltou pela janela, tropeçando no parapeito, pisou a alcatifa, caiu no tapete e, finalmente, atirou-se para o sofá.

Só que a valsa, essa continuava. Mais suave, é certo, tão débil que não sobrava mais do que um sussurro, um arrepio.

Parecia que o Imperador se calara, que se fora embora. Contudo, um soluço súbito, semelhante a um trovão, ribombou pela rua, por entre os edifícios. Marta levantou-se, cansada, e olhou pela janela.

O disco voador, silencioso, escuro e triste, como que um monstro fantástico, levantava voo e afastava-se, no céu.

A moça não aguentou mais e deitou-se no sofá. Estava tão cansada que adormeceu.

 

 

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A VALSA DO IMPERADOR

de Ilona Bastos

pág.7

* * *

“Marta! Marta!”, ouviu o seu pai chamar. “Acorda! Anda à janela! Vem ver um disco voador!”

A rapariga encarou-o, confusa e assustada.

“Anda!”, insistiu ele. “Depressa!”

A mãe, que também já regressara da rua, entrou na sala. Marta levantou-se, ainda cansada, e dirigiu-se à janela.

Lá no alto, mais pequenino que  uma estrela distante, movia-se o disco voador.

“Eu tenho a certeza de que é um disco voador!”, afirmou o pai, interpretando o silêncio da mulher e da filha como sinal de incredulidade. “Agora mesmo, quando me aproximava de casa, vi-o muito perto, quase à altura de um arranha-céus.”

Mal o pai acabara de falar, novo trovão ribombou nos céus, e uma lágrima rolou pela face de Marta. Aproximou-se do candeeiro e observou a roupa que trazia vestida: umas calças de ganga azul e uma blusa branca. Junto a si, estendido sobre o sofá, o vestido cinzento parecia observá-la misteriosamente.

“Ploc” – o braço automático do gira-discos pousou novamente sobre o disco de Strauss. E uma valsa começou a tocar.

“Ó Marta! Já é demais!”, exclamou a mãe. “ A Isabel, que está em casa da vizinha debaixo, disse-me que estás a ouvir este disco do Strauss há horas. Não me digas que vais continuar a tocar a Valsa do Imperador!”

“Não”, respondeu a Marta, dando um salto na direcção do gira-discos.”Nunca mais quero ouvir a Valsa do Imperador!”

Um troar longínquo penetrou na sala, pela janela aberta, junto da qual os pais de Marta se encontravam.

“É melhor fecharmos a janela, porque está ficar frio.” disse a mãe. «Vamos, já está na hora do jantar."

 

Fim

 

 

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