O ROCHEDO

de Ilona Bastos

          

Era uma vez um rochedo. Tão alto e majestoso ele era que chegava ao céu. E como também se estendia, em comprimento, por muitos quilómetros, a quem o olhava assemelhava-se a uma verdadeira muralha, uma parede de rocha agreste mas sublime na pureza das suas arestas e nos tons aveludados que a cobriam conforme o sol se levantava, a oriente, ou se punha, a ocidente.

Do lado ocidental do rochedo formou-se uma vila muito activa, de gente humilde mas laboriosa que se dedicava à pesca para sustento das suas famílias. Aninhava-se tal vila entre a montanha e o mar, em várias linhas de casas baixas, caiadas de branco, que orlavam a praia, de costas voltadas para o rochedo gigantesco que lhes impedia o acesso ao interior. Chamava-se tal vila Beira-Mar.

Também do oriente nasceu uma pequena povoação, habitada por honestos agricultores que lavravam as suas terras, plantavam o trigo, a batata, as couves e as árvores de fruto que por alturas de Março floriam e cobriam os campos de tonalidades maravilhosas. Dispunham-se as casinhas, de telhas vermelhas, em redor de um jardim cuidado, fronteiro à igreja, que dava também para a câmara, para o hospital e para o tribunal. E esta vila chamava-se Boa-Terra.

Viviam todos felizes, tanto quanto se pode ser feliz nesta Terra criada por Deus: dedicados às ondas, uns, que orientavam o seu viver pela dança das marés; devotados à terra, os outros, que no brotar dos caules e das folhas encontravam a perfeita harmonia!

Desconheciam-se uns dos outros, é preciso que se diga, pois nessas vilas não existiam telefones, telemóveis, televisões, Internet, ou comunicação via satélite… Não existiam também aviões. Ou seja, não existiram até certa altura, exactamente a altura em que começa a nossa história... Portanto, os habitantes de um e do outro lado do rochedo desconheciam a existência uns dos outros.

Aconteceu que em ambas as povoações, lá pelo início da Primavera, quando o sol se dedicou a sorrir mais abertamente por entre as nuvens, começaram a cair dos céus pequenas sementes de sonho. Não eram visíveis à vista desarmada, como é evidente. Mas quando tocadas por alguém que lhes não tivesse defesas, conheciam artes de se insinuar no cérebro dessa pessoa e, em poucos minutos, levá-la a sonhar.

Vão dizer-me que se tratou de um fenómeno estranhíssimo, e nisso não vos posso contradizer. Mas o certo, o certo, é que aconteceu. E, por incrível que pareça, aconteceu em ambas as vilas, ou seja, de ambos os lados da gigantesca muralha de rocha!

Os sintomas — vou descrevê-los para que possam ser reconhecidos em caso de repetição do fenómeno — os sintomas consistiam num súbito entusiasmo, num rubor que cobria as faces dos semeados, numa leveza de passos de que pareciam ficar dotados, num sorriso que se lhes estampava nos rostos e, especialmente, muito especialmente, em fantásticas ideias que, como raios, lhes surgiam nos espíritos normalmente pouco dados a tais agilidades do pensamento.

 

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O ROCHEDO

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Primeiro, o Ernesto, filho do padeiro; depois, o Engrácio, sobrinho do barbeiro; de seguida a Paulina, afilhada da florista; o Bruno, neto da calista... enfim, um após outro, na vila Beira-Mar começaram a apresentar o quadro sintomático acima descrito.

Escusado será dizer que em Boa-Terra o mesmo sucedeu. E até o Januário, reformado de longa data, que pouco saía à rua por conta dos seus noventa e nove anos, apareceu, certo dia, de faces inflamadas, sorriso aberto e passo atlético, insistindo em ser ouvido na assembleia municipal sobre a introdução de importantes melhoramentos no sistema de abastecimento de água e de rega dos campos da povoação.

Os médicos de ambos os lados foram consultados pelos respectivos concidadãos e, porque também alguns deles haviam sido bafejados pela semente do sonho, rapidamente concluíram, após análise das microscópicas sementes e verificação das circunstâncias do contágio, que a explicação do fenómeno não poderia encontrar-se senão no alto do rochedo.

O alto do rochedo!

Ergueram-se os olhares das populações para aquela mole de pedra, que perante elas se erguia.

É engraçado! De tão presente, o rochedo tornara-se ausente da vida daquelas gentes. E, agora, surgia como se o vissem pela primeira vez!

- É espantosamente alto! - comentaram uns, de pescoço esticado.

- É estranhamente belo! - exclamaram outros, fazendo com a mão uma pala, de forma a impedir o sol de lhes perturbar a visão.

- É realmente misterioso! - confessaram os mais curiosos.

- É imperativo que subamos ao cimo do rochedo e encontremos a origem das sementes do sonho! – concluíram os sábios.

Reparem que estas frases, ou outras semelhantes, foram ditas em ambas as vilas!

Reunidas as respectivas populações, em cada uma das povoações foram apresentadas ideias, discutidos os prós e os contras de cada plano e, finalmente, foram aprovados projectos.

Em Beira-Mar, uma invenção tornou-se vencedora: à semelhança do que acontece com os barcos, que sob o efeito do vento corriam de velas inchadas sobre o mar picado, deveria uma embarcação de verga, dotada de enormes velas cozidas sob a forma de um balão, levantar voo pelo impulso do ar aquecido, ganhar altura e pousar sobre o topo da montanha.

Já em Boa-Terra a ideia foi outra: aproveitar as ferramentas próprias do ferreiro, espetar na pedra grampos que servissem de degraus, utilizar cordas fortes e marinhar pelo rochedo acima.

 

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Todos lançaram mãos à obra, e de imediato teve início a aventura.

O João, rapagão inteligente e ágil, famoso pela sua valentia, logo começou a treinar-se na arte de trepar montanhas. E alguns dias depois, certa manhã bem cedo, lá partiu, perante a população expectante. Levava cordas, botas, um saco preso às costas, martelo, espigões e tudo o mais necessário à escalada.

O engenho voador também ficou pronto em poucos dias. E, depois de variadas experiências, devidamente adaptado com a forma de um balão  cheio de ar quente, descolou das brancas areias da praia, planou, voou, e subiu em direcção ao rochedo. Tripulava-o a Maria, rapariga valorosa e intrépida, sempre pronta a dar resposta às mais difíceis questões.

Qual a façanha mais fenomenal? Ambas! Qual a mais arriscada? Ambas! Qual a que mostrava maior coragem e inteligência? Ambas!

Bom, a verdade é que em pouco tempo o balão elevou-se no ar e, conduzido pela jovem, foi-se aproximando da rocha, que se tornou gradualmente mais nítida, mais próxima, mais real. A rapariga manobrou o engenho, sentindo as correntes de ar ascendente e aproveitando-as com mestria. Subindo sempre, as figurinhas, na praia, pareciam minúsculas formigas, o céu tornou-se imenso e, para além do rochedo, descortinavam-se campos verdes, manchados de amarelo, vermelho e lilás, como um quadro saído da imaginação de um artista.

A Maria não cabia em si de espanto ao perceber que do outro lado do rochedo também havia casas, também havia vida!

Lembrou-se, a tempo, de que era sua missão pousar no topo do rochedo e localizar a fonte das espantosas sementes do sonho. E, assim, regulou o fornecimento de ar quente, fez o aparelho perder altitude, e acabou por pousar lá no alto.

Que vista arrasadora, a do oceano azul e imenso a brilhar ao sol! E, a Oriente, que imensidão de verde em vários tons, que se estendiam por toda a planície, até uma longínqua cordilheira de picos nevados! Parecia-lhe sonhar! Bateu com os pés fortemente na rocha, para baixar à terra, e olhou em redor, procurando o que os sábios da vila haviam previsto ser um arbusto exótico, provavelmente florido, lançando ao vento os esporos maravilhosos.

Á sua volta não havia plantas, nem vida, tão somente rocha. E a Maria começou a andar, primeiro lentamente, depois mais rápido, em seguida correndo.

E o João? - desejarão vocês saber, e com toda a razão.

 

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pág.4

 

Pois o João, por esta altura, tinha igualmente alcançado o topo do rochedo. Estava fatigado mas feliz, libertando-se da mochila pesada que carregara às costas. E quando, livre desse fardo, ergueu, primeiro o corpo, e depois o olhar, quedou-se extasiado. Além rochedo estendia-se, para Ocidente, uma imensidão de luz viva, reflectida por uma superfície ondulante de azul intenso, delimitada, no horizonte, por uma suavíssima linha esbranquiçada, que a separava da imensidão do céu. Mais próximo da rocha, banhada por sucessivas vagas, estendia-se uma longa faixa branca, junto à qual se erguiam as casas. O João descobriu, maravilhado, que também ali havia pessoas!

Fixando a sua atenção no rochedo propriamente dito, o rapaz decidiu cumprir a tarefa de que fora incumbido: encontrar a origem das sementes do sonho. E para isso começou a caminhar ao acaso, alongando o seu olhar tanto quanto lhe era possível.

Foi assim que avistou, não a esperada planta, mas o vulto de uma rapariga.

O seu coração bateu fortemente, de espanto e contentamento. Não reconheceu a jovem, pelo que logo concluiu que a mesma não pertencia à sua vila. Mas reparou em como eram agradáveis as suas feições, e como lhe pareciam elegantes os seus movimentos, à medida que se aproximava, correndo na sua direcção! O João apressou o passo.

A Maria abrandou o passo, ao descortinar, com imensa surpresa, o rapaz alto e simpático que para si caminhava.

Os jovens saudaram-se com alegria e rapidamente compreenderam a similitude das suas tarefas. Por isso, resolveram juntar-se para procurar  a planta das sementes do sonho.

Guardaram os seus pertences numa reentrância da rocha – uma espécie de gruta que havia ali perto -, e iniciaram as suas buscas para o Norte. Caminharam até terem perdido de vista as suas vilas e apenas vislumbrarem o mar e as florestas de cada um dos lados do rochedo.

Mas para o Norte nada encontraram.

Resolveram voltar para trás, e chegaram à gruta exactamente quando o sol, enorme e alaranjado, começava a mergulhar no oceano, deixando o João, que nunca assistira a tal espectáculo, verdadeiramente encantado.

 

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O ROCHEDO

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pág.5

 

O João e a Maria dividiram entre si os farnéis que tinham levado e, sentados sobre o rochedo, contaram um ao outro como viviam e como eram as suas terras, os seus hábitos e os seus sonhos. Evidentemente, cada um deles tinha imensa curiosidade sobre a vida do outro, e chegaram a soltar boas gargalhadas a propósito dos costumes de cada uma das vilas, que tão bizarros pareciam quando vistos com os olhos dos outros. Mas o mais interessante foi perceberem que as diferenças entre as duas populações, e as diferenças entre eles próprios, eram apenas superficiais. Por muito diferentes que aparentassem ser, na verdade tinham exactamente os mesmos sentimentos, os mesmos desejos, os mesmos anseios, os mesmos medos, ou seja, as mesmas alegrias e as mesmas tristezas.

Na manhã seguinte, mal o sol nasceu por detrás das longínquas montanhas, a Maria e o João reiniciaram a sua busca, desta vez para o Sul. Sempre atentos, procuraram durante toda a manhã, até que, voltando as cabeças para trás, perceberam que já as suas terras se encontravam muito distantes. E os jovens nada haviam descoberto, pelo que decidiram regressar à gruta.

Mais uma vez se sentaram, lado a lado, a observar o pôr-do-sol e a falar. Não deixava de lhes causar espanto o facto de não terem encontrado nenhuma planta ou arbusto que pudesse ter expelido as sementes do sonho, que tanto impacto tinham causado nas povoações. Mas, por outro lado, para cada um deles, a descoberta de que existia uma vila do lado de lá do rochedo, assumia uma tão maior importância que tudo o resto parecia insignificante. Rapidamente os jovens concluíram que o importante, agora, era que as duas vilas se conhecessem, e por isso planearam a construção de um túnel, através da montanha, que permitisse a passagem por terra. É claro que os engenhos voadores também poderiam ser facilmente utilizados para transportar pessoas e bens de um lado para o outro.

Era tal o entusiasmo da Maria, que só tarde adormeceu. E o mesmo se passou com o João, é claro, que já se imaginava a pisar aquela faixa de terra branca que a Maria descrevera com sendo macia e quente, e a entrar por aquele mar fantástico, cujas ondas borbulhantes refrescavam a areia…

E, aqui, a nossa história aproxima-se do fim! Porém, acompanhemos ainda os intrépidos aventureiros no regresso às suas terras:

 

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pág.6

 

Depois de acenar adeus à Maria, que lá partiu no seu aparelho voador, o João colocou o saco às costas e iniciou a descida. Fê-lo com cuidado, mas com entusiasmo. Tal como a Maria, cujo coração batia forte, de felicidade.

Chegados às suas vilas, os jovens deixaram os concidadãos de boca aberta, de espanto, tais as notícias surpreendentes que lhes levavam. E logo os cidadãos mais empreendedores alinharam nos planos para  a construção do  túnel e para o desenvolvimento dos engenhos voadores…

Estamos, agora, chegados ao fim da nossa história, como vocês já perceberam! As duas povoações uniram-se numa só, graças às sementes do sonho, e desde então os inventos e as novas ideias de progresso nunca mais pararam de surgir, aumentando o bem estar das populações e a possibilidade de comunicarem entre si e com os outros a longas distâncias, como se todas as vilas do planeta fossem uma só.

O enorme rochedo, que durante tantos anos separara as duas vilas e isolara os seus habitantes, tornou-se, afinal, o elo da sua união e a fonte do seu progresso. Faz-nos até pensar que os obstáculos, em vez de nos levarem a desistir, servem, isso sim,  para nos incitar a progredir!

E quanto à misteriosa origem das sementes do sonho? Continua um mistério. Nunca ninguém a descobriu, apesar de mais tarde terem chegado notícias da repetição do fenómeno noutras vilas e noutros continentes.

E sobre o João e a Maria? Não, não me esqueci deles! Então, vocês não adivinham o que lhes aconteceu? Pois claro, foi isso mesmo: casaram, tiveram meninos e foram felizes para sempre…

 

Fim

 

 

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