POESIA DE

ILONA BASTOS

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POEMAS

 

NAS MALHAS DO TEMPO

Ilona Bastos

 
 


Fotografia de © .Yitzhak Avigur

 
 

Atrapalho-me nas malhas do tempo.

Quanto mais tento detê-lo,

Mais me prende o tempo a mim,

Na lentidão que aos meus gestos dá,

Na confusão que ao pensamento doa.

.

E, assim, tropeço nas horas e nos minutos,

Enquanto o tempo, trocista, sorri,

Célere avança e se afasta, jocoso,

Acenando de longe, provocador,

Sempre seguindo o seu caminho.

.

Caio em desespero, olho o relógio,

E os ponteiros que lestos se aproveitam

Da distracção do meu escrever,

Para saltar, ágeis, no mostrador

Da vida levando, de assentada,

Luminosas porções de tempo perdido.

.

Hesitante, paro, num repente,

Sem saber se dar ouvidos à voz troante

Que no interior de mim ecoa, persistente

Em deslizar-me pelo braço, até à mão

Que segura a caneta e a faz correr

E patinar, dançando, sobre o papel.

.

Não! Tenho de sair e seguir o meu percurso,

Mesmo se o tempo se entretém

A trocar-me as voltas e a rir, escarninho,

Perante o torpor dos meus gestos indecisos,

E a inconstância do meu pensar,

Perdida que estou nas malhas do tempo.



Lisboa, 2 de Outubro de 2005

 

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© 2004 - Ilona Bastos - Todos os direitos reservados

Pintura de Henri Lebasque

Som de fundo: Chopin, 2 Nocturnes, Opus 27, nº 2

Mais recente actualização: 2 de Outubro de 2005