GENTE
Ilona Bastos

Mandaly Louis-Charles, The Beggar,
30x30 oil in canvas
..
Cuidas
tu que sou diferente.
Ao
passar, olhas de lado.
E eu
sinto, tristemente,
Teu
sentir de desagrado
.
Vê
meu rosto sofredor,
Meu
olhar banhado em pranto,
E
como busco o amor,
Sem
descanso, sem quebranto!
.
Eu só te peço
um momento.
Pára e vê a
realidade!
Procura em teu
pensamento
O que sou eu em
verdade.
.
Vê
minha ânsia de carinho
E os
braços que te lanço.
Como
em teu colo me aninho
E no
teu calor descanso!
.
Diz-me no que
sou diferente
Do teu sentir e
pensar.
Olha-me bem,
realmente!
Minha essência
ousa tocar.
.
Vê
meus lábios a sorrir,
De
ternura, compreensão.
Como
uma rosa a florir,
Abro
eu meu coração!
.
É a raça, a
minha cor
Que te causam
confusão?
O não ver, a
minha dor,
Ou a minha
profissão?
.
Vê
como ensino e aprendo,
Como
escrevo, canto e danço.
À
tristeza não me rendo,
Vivo
sempre e não me canso!
.
É meu sexo,
religião,
Que te deixam
assustado?
Se me vês, de
antemão
Tens um juízo
formado?
.
Vê
a obra que criei,
O
meu esforço, o meu labor.
O
muito que trabalhei,
Como
lutei com ardor!
.
Vê como rio ou
choro,
Como amo, como
grito!
Que me olhes, eu
imploro,
É disso que
necessito
.
É disso que
necessitas,
Que me olhes,
para ver!
E diz-me então
se acreditas
Que eu diferente
possa ser.
.
Diz-me lá se
sou diferente
Do que tu és,
ou os teus.
Tu e eu, nós
somos gente,
Todos nós
filhos de Deus!