| O que a imagem destas ondas
me desvenda Vai além do
horror, da destruição e da morte,
Expostos ao meu olhar de
lágrimas toldado.
.
Vai além do medo e da dor,
Que já conheço de outros
tempos.
..
É, antes, a lúcida
revelação do que,
Aparentemente, apenas eu
ignorava:
Que as dádivas maiores a
almejar
Não são as do prazer, do
riso, ou da sorte,
Nem da facilidade do vogar
sereno,
Em águas tépidas, que
suaves nos transportam.
.
As dádivas preciosas são
as da força,
Da coragem, da esperança,
da fé, e da caridade.
Pois são elas que nos
salvam, à beira do precipício,
São elas que nos erguem,
quando caímos,
São elas que nos amparam e
mostram o caminho,
Que nos iluminam, na
escuridão,
Que nos apaziguam, quando
sofremos,
Em sofrimento com os nossos
irmãos.
.
Essas são, em verdade, as
dádivas que podemos desejar,
Já que a vida é luta, é
guerra, é sofrimento,
E nem a terra, nem o ar, nem
a água
Se quedam inertes, perante
nós subjugados,
Vergados à nossa
inteligência suprema
De filhos de Deus, de
dominadores do mundo.
.
Nada comandamos senão os
parcos actos
Que cometemos, crianças
endiabradas,
Em momentos de distracção
ou bonomia
Das forças poderosas que
nos cercam,
Contemporâneas do nosso
respirar.
.
Não dominamos a terra, nem
o mar,
Nem os ventos, nem o
destino,
E só por ilusão ousamos
pensar
Que tudo será riso, sorte e
facilidade
Se com destreza navegarmos
pela vida
Seguindo as mansas águas da
corrente.
.
Haverá sempre ondas no
trajecto do Homem.
Possa ele ter as dádivas da
fé, da esperança e da caridade
A auxiliá-lo no seu
caminho!
.
. Lisboa,
1 de Janeiro de 2005
|