| Disse, fingindo, que a minha
poesia É prosa
cortada aos pedaços.
E fiz o gesto do cutelo,
gargalhando.
Acrescentei que tiro um
verbo
Aqui, e uma preposição
ali,
Para deixar o texto
destrambelhado,
Inteligente. Soltando
risadas alegres,
Coloco um título, e assim
É que escrevo a minha
poesia.
Terminei e desliguei,
pensando:
Fernando Pessoa é que
sabia.
Os versos perseguem-me todo
o dia -
O poeta é um
fingidor.
Finge tão
completamente
Procuro este caderno âncora
Onde deposito desabafos
incoerentes,
Que finjo serem fingidos, e
são,
Pois não desvendam nem
espelham
A infinitésima parte do
furacão
Que me percorre, abala e
arrasa,
E verto em homeopáticas
doses
Nestes poemas delicados,
polidos,
Dilacerados nos cortes que
faço,
Rindo, sorrindo, fingindo
Que finjo...
Lisboa,
7 de Dezembro de 2004
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