POESIA DE

ILONA BASTOS

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POEMAS

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CAMPO DE OURIQUE

Nos Passos de Fernando Pessoa

Ilona Bastos

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Fernando Pessoa

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O bairro está alegre, não sei porquê.

Talvez seja da chuva, que parou.

Ou dos raios de sol, coados pelas nuvens,

inundando a manhã de uma luminosidade bela,

que desce pelos telhados, infiltra-se na folhagem

e desliza para a calçada,

onde desenha bordados brilhantes,

trabalhados na sombra.

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Noto nos transeuntes um semblante animado.

Apercebo-me mesmo do seu andar saltitante,

tão pouco habitual neste bairro antigo.

Tantas e tantas vezes tenho percorrido estas ruas,

observando o cansaço nos rostos com que me cruzo!

Ou será ilusão minha, influenciada que vou

pelas histórias tristes que acabei de ouvir

e pelos conselhos difíceis que tive de dar?

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Mas hoje não, não há cansaço, nem rostos sofridos –

o bairro está alegre. E não sei porquê.

É certo que a manhã me sorriu,

que não me couberam dramas, nem tragédias,

que as respostas as tive na ponta da língua

e que as notícias as pude dar animadoras!

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Intrigada, pergunto-me se Fernando Pessoa,

que por estas mesmas calçadas andou,

que também aqui morou ao longo de quinze anos,

notou estes desvarios do pacato bairro

que num belo dia de Setembro resolve descobrir-se alegre,

vestir-se de luz dourada, pincelar os edifícios de magia

e brindar os seus habitantes com a graça da Felicidade.

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Quando Pessoa dizia “Vou num carro eléctrico,

e estou reparando lentamente, conforme é meu costume,

em todos os pormenores das pessoas que vão adiante de mim”,

estaria a referir-se igualmente a estas mudanças bizarras,

a estas revelações inauditas, inesperadas,

em caminhos tão conhecidos, tão familiares

que suporíamos não poderem apresentar para nós

quaisquer segredos ou mistérios?

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Repito os passos de Fernando Pessoa.

Dirijo-me ao Jardim da Parada.

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Hoje, até a estátua da Maria da Fonte, por entre as flores,

parece ter perdido a sua rigidez de pedra

e adquirido movimento nos cabelos soltos,

flexibilidade nos gestos de mulher do povo

que reivindica a liberdade.

Acena, risonha, às crianças nos baloiços,

à senhora idosa de bela cabeleira branca,

que empurra o carrinho do neto,

à fonte, em êxtase, que lança diamantes em redor.

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Que alegria desgovernada percorre o bairro!

Até me custa deixá-lo, sem saber o que fará

quando lhe virar as costas.

Explodirá em festivos destemperos?

Mas o estômago, insistente, requisita almoço urgente,

e já abandono o jardim, passo a rua das sardinheiras,

dobro à esquerda e avanço, desaguo na Maria Pia,

ainda a tempo de ver, voltando a cabeça rapidamente,

as cascatas de luz que descem pelo casario

e inundam o vale de Alcântara.

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 Lisboa, 4 de Setembro de 2004

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Sugestão de visita: 120 Anos de Fernando Pessoa no Grupo Ecos da Poesia

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Pintura de Henri Lebasque

Som de fundo: Chopin, Fantasie, Imprompt, Opus 66

Mais recente actualização: 16 de Junho de 2008