POESIA DE

ILONA BASTOS

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POEMAS

MAR

Ilona Bastos

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MAR - I

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Desta feita não necessito

De recorrer à imaginação.

Os sons de flauta partem

Mesmo de canas e lábios

Em rostos de olhos amendoados.

A frescura da melodia

Coincide com a brisa marítima

E o oceano estende-se

Diante de mim

Magnífico.

.

Ao longe, os faróis

Lançam fachos de luz

Sobre o céu nocturno e o mar.

..

Afirmei ao almoço,

Com o tom que adopto

Ao proferir inépcias,

Que nada tenho a

Ver com a poesia

E que a largo e aos versos

Quando bem entender,

Pois poeta não sou.

.

Como explicar, então,

Que ao som da flauta dos Andes

Corra célere, em busca

De um papel e uma caneta?

Como explicar, então,

As palavras irreprimíveis

Que desenho freneticamente,

Embalada pelas notas sublimes

Que os índios tocam

Pela noite

À beira-mar?

.

Como explicar?

.É da música, da poesia

Ou do mar?

De onde vem esta magia

Que me envolve os sentidos,

Até às lágrimas,

Até ao arrepio,

Até ao poema?

..

 

MAR - II

 

 

 

 

 

 

 

.Com o frescor da noite

Tornam-se os sons

Mais fortes, tais rituais

De tribos que rogam

Aos deuses.

.

E mais ténues

Soam as vozes passantes

Das famílias na calçada,

Em ameno passeio

À beira-mar.

.

Levam casacos

E agasalhos outros,

Protegendo-os da aragem

E do sopro aflautado

Que alterna com as vozes

Em ritos cantados

De exótico soar.

.

Na escuridão,

O mar é igual ao céu.

.

As luzes longínquas

De um navio quedam-se

Estáticas.

.

Mais que as ondas invisíveis,

É a música que embala

A atmosfera, junto à praia.

.

MAR – III

 

.Do rectângulo que é janela

Me aproximo,

Atraída pelo azul intenso,

Delicadamente debruado a branco

Numa faixa estreita

Junto à mancha bege

Do areal.

.

E as rochas, manchas também,

Que abrigam as gaivotas

Brancas,

E o bordado verde das folhas

Das árvores, que brilham

Em primeiro plano,

Tudo me atrai para o

Rectângulo que é janela.

.

Junto à janela

O quadro é alargado

E perfeito.

.

Pequenas figuras humanas

Caminham na maré baixa,

Com a elegância própria da manhã

E da lonjura.

.

As folhas das árvores

Vibram suavemente na brisa,

Na demonstração de que a paisagem

É viva.

.

A bandeira azul e branca

Acena compassada

Sobre a rocha clara,

.

E as gaivotas voam

À desgarrada, cruzando

A nossa vista, em improvisos.

.

Um barco carregado

Navega sobre a água mansa,

Para a frente inclinado,

Desenhando o seu rasto de espuma,

Cruzando-se com outro barco,

Ambos ligeiros, ambos sabedores

Do seu destino.

.

Afasto-me do rectângulo

E uma vez mais maravilho-me

Com a intensidade do azul

E o brilho do verde acenante.

.

Regresso ao meu posto,

Dilatando a paisagem

E abarcando, no meu olhar,

Todo o horizonte.

.

.

MAR – IV

 

 

 

 

 

 

 

.Proponho-me ser eu

Em vez de nós,

E singular descer

Ao areal.

.

Momentaneamente

Cercada de paredes,

Vejo no interior do meu olhar

As manchas bege, branca e azul

Da areia, da espuma e do mar.

.

Imagino-me descalça,

Caminhante sobre a borda da água

Que sei ser macia,

Deixando que a espuma

Borbulhe brilhante sobre a minha pele,

E que o mar

Aqui tão suave e transparente

Se desdobre e deslize, fluído

E luzidio, sobre a areia

E os meus pés.

.

Sinto a água tépida

A receber-me e a retirar-se

Brejeira, e a novamente avançar,

Solícita, em corridas e recuos

Sucessivos, em nítida brincadeira

Com o sol.

.

Proponho-me ser eu

Em vez de nós,

E singular brincar

Com o sol e o mar.

.

.

MAR – V

 

 

 

 

 

 

 

Estou e não estou

Na praia,

Enquanto não conversar

Com o mar.

.

Se o contemplo de longe,

Se lhe aceno sorridente,

Mas não me entrego, sozinha,

Não estou ainda na praia.

.

Se desço a longa escadaria,

Se saltito sobre a areia quente,

Mas não me entrego, sozinha,

Não estou ainda na praia.

.

Se molho os pés conversando,

Se olho os banhistas divertida,

Mas não me entrego, sozinha,

Não estou ainda na praia.

.

A conversa com o mar

É assunto meu.

Requer silêncio e sensibilidade,

Pois falo com os poros

Todos do meu corpo,

Escuto com todos os milímetros

Da minha pele,

Dou-me da ponta dos pés

Ao extremo dos cabelos,

Mergulho uma e outra

E outra vez, com suavidade,

Longe dos risos e dos gritos,

Afundada no marulhar das ondas,

No sabor salgado e na brisa,

No brilho e na temperatura

Quase quente, quase fria

Do arrepio.

.

Assim converso com o mar.

.

..

 Lisboa, Julho de 2004

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© 2004 - Ilona Bastos - Todos os direitos reservados

Pintura de Henri Lebasque

Som de fundo: Chopin, 2 Nocturnes, Opus 27, nº 2

Mais recente actualização: 21 de Junho de 2006