POESIA DE

ILONA BASTOS

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POEMAS


O RITUAL DO CAFÉ

Ilona Bastos


Estampa-se o sol em delicados raios

Sobre o mármore branco e liso da cozinha.

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Suavemente me debruço e uma porta abro,

Recolho a chávena fina e o florido prato.

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Ergo o meu braço e num voo livre,

No gesto de um armário desvendar,

Colho o nobre pó de inebriante aroma.

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Alongo a mão que a gaveta encontra,

E dela escolho, enfim, a colher mais bela,

Brilhante, pequena, com terno recorte.

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Tudo coloco em ordem e harmonia:

O prato tranquilo e a expectante chávena,

Nesta, o torrado grão moído, de castanho intenso.

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No açúcar rico, centro o meu cuidado,

A montanha branca transportando, pura,

Em bojuda prata que doce se inclina.

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E luzem cristais em cascata linda!

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Depois, a água borbulhante, quente,

A mistura inunda, dissolvendo-a

Em espirais de espuma que a colher adorna.

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Café! Café! Precioso encanto!

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Em dégagé devant te cumprimento,

Os meus braços lanço em acolhimento grato.

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Da janela aberta me acerco então.

Tão bela é a vista que o Outono pinta no jardim!

Castanho da terra e verde das plantas unem-se

À água que brilha em bebedouro antigo.

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Aspiro, feliz, da manhã tranquila, o seu odor

A quente café e à relva orvalhada.

Olho o céu e sorvo um gole, outro e outro.

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E assim me quedo, por instantes longos.

Entre o prazer forte do café e a doçura da manhã

Mais um dia de vida se inicia!

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Lisboa, 24 de Outubro de 2004

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Pintura de Henri Lebasque

Som de fundo: Chopin, 2 Nocturnes, Opus 27, nº 2

Mais recente actualização: 3 de Fevereiro de 2005