IV- A Girafa e o Leão

(2ª Parte)

de Ilona Bastos

 
                       
         
         
    Na clareira - iluminada pelo luar e por centenas de pirilampos que aí se haviam reunido - encontrava-se uma multidão de animais, ansiosa pelo desfecho da contenda. Já os partidários do Tigrês se vangloriavam da sua esperada vitória. E os adeptos do Beltrão, embora temerosos, dada a idade avançada do leão, ostentavam sorrisos de aparente superioridade.

A Girafa e o Macaco corriam com precipitação, receosos de não chegar a tempo de evitar o pior. E, com efeito, quando os dois se aproximaram da clareira já um silêncio intranquilo aí se instalara. Do lado da floresta, o tigre avançava, ameaçador, em passos lentos e calculados, o dorso arqueado, os olhos luzindo, fulgurantes. E, da banda da savana, surgia o leão, majestoso, imponente, mas mais calmo, como que mais contido.

Pois, exactamente no momento em que os dois duelistas se defrontaram - nesse preciso segundo em que o silêncio e a expectativa atingiam o seu auge e nenhum animal se atrevia a mover um músculo sequer -, algo de inesperado aconteceu: precedidos e acompanhados de enorme ruído, os nossos amigos Macaco Esperto e Girafa Cientista irromperam do arvoredo, atabalhoadamente. O Macaco soltava guinchos de excitação e alarme, e pulava sem parar. A Girafa mostrava o frasco com a sua mais recente invenção: a poção mágica que transformaria o Beltrão num valentão.

- Eu, a Girafa Cientista, tudo resolverei! - declamou a Girafa, estendendo, orgulhosamente, a pata, ao leão. - Esta poção mágica far-te-á ganhar a luta!

Só que nada sucedeu como a Girafa previra, pois logo uma grande confusão se gerou, e o frasco voou pelos ares, derramando o seu conteúdo exactamente na boca do tigre, que lambeu os beiços, satisfeito.

- Minha mãezinha me acuda! - murmurou o Macaco, aflito.

- Belo preparado, Girafa! - rosnou o tigre, sarcasticamente. - Agradeço-te a amabilidade... Ai! Ai! Ui! Ui!

E, perante o espanto geral, o tigre abandonou a sua habitual compostura, dobrou-se sobre si próprio e pulou, agarrado à barriga.

- Sempre pensei que vinha assistir a um combate! - exclamou um papagaio. - Mas afinal o tigre convidou-nos para um bailado. Queria mostrar-nos que sabe dançar?!

- E também cantar! Só que desafina demasiado para o meu gosto! - acrescentou o Macaco, compreendendo o que se estava a passar. Mais uma vez a Girafa fizera uma grande trapalhada, e o poção mágica só servia para dar dores de barriga.

- Ai! Ai! Ui! Ui! - continuava o Tigrês. - Minha rica barriguinha!

O leão, que de início não baixara as defesas, receoso de um embuste do tigre, ergueu-se com dignidade, e falou:

- Meus súbditos! O Tigrês acovardou-se e não mais pretende lutar. Que assim seja. Também eu não desejo a guerra, mas sim a paz, com que sempre tenho governado o meu reino. Ficai, pois, tranquilos, que mais nenhuma ameaça paira sobre vós ou o vosso rei.

E, enquanto o Tigrês e os seus partidários - que, aliás, eram poucos - se afastavam, cabisbaixos e envergonhados, os fiéis súbditos do leão rodeavam-no, com alegria.

- E tu, Girafa, - acrescentou o rei. - serás, de futuro, a Cientista Real.

- Agradeço-vos, Majestade - balbuciou a Girafa, comovida. - Para vós inventarei poções mágicas que operarão as mais fantásticas transformações.

- Certamente! - anuiu o leão, afastando-se.

- Boa, Girafa! - aplaudiu o Macaco, dando-lhe uma pancadinha nas costas e piscando um olho. - É certo que não tornaste o Beltrão num valentão, mas sempre transformaste o Tigrês numa bailarina!

   
 
         
   

 

   
 

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