VII- A Girafa e a Vitória Final

3ª Parte

de

Ilona Bastos

 
                       
         
         
    Não mais a Girafa conseguiu raciocinar, arrastada num turbilhão de medo, vergonha e outas bizarras sensações. Como todos os demais ocupantes da sala - com excepção do criado, que tudo olhava, espantadíssimo e assustado - a Cientista começou a diminuir, a encolher, a mirrar. Também aos leões viu as patas tornarem-se diminutas, as farfalhudas jubas transformarem-se em espinhos que se espraiavam pelo dorso, e as bocarras terríveis serem substituídas por focinhos pequenos, já inclinados, atarefados, a tentar comer os frutos sobre a mesa.

Como se não bastasse a confusão reinante, da porta soaram guinchos e entrou, espavorido, o Macaco Esperto, devolvido à sua primitiva forma.

- O Tigrês! Vem aí o Tigrês! O Tigrês está a atacar! - berrou o Macaco, em grande excitação.

Não é que o traiçoeiro do tigre tinha marcado o seu golpe exactamente para aquela noite, sabedor do banquete e julgando ir encontrar o leão e os seus convidados já demasiado empanturrados e bêbados para se defenderem? Não lhe correu foi o esquema de feição, como veremos.

Empolgado por se sentir novamente no seu corpo de primata, consciente da seriedade do momento e nada surpreendido com o aspecto dos convivas - pois vira o criado levar a garrafa, sem conseguir impedi-lo - o Macaco Esperto logo compreendeu como devia actuar.

- Lutemos! Lutemos! - gritou ele para os porcos-espinhos. - Avancemos para a vitória, a grande velocidade, as espadas em riste, sem dar hipótese ao inimigo!

Valorosamente, os pequenos animais correram em direcção à porta, invadiram o corredor, desceram a escadaria, atingiram a entrada e, galopando, investiram contra o Tigrês e os seus seguidores.

Daí a pouco só se ouviam "Ais" e "Uis", e chamamentos de "Mãezinha!", tão inesperado fora o ataque das tropas reais sobre os invasores, nada preparados para uma arma tão original mas poderosa.

Em poucos minutos, os porcos-espinhos deram conta dos seus inimigos, e o Tigrês, choramingando, prometeu:

- Nunca mais volto a fazer! Nunca mais! Nunca mais!

Todo o grupo acabou por fugir: uns, ao pé cochinho, saltitando, os outros, ajudados - todos lamentosos e picados, mesmo muito lamentosos e muito picados.

Vencida a batalha, os soldados regressaram ao castelo, onde os esperava o Macaco Esperto, exultante e ansioso por saber pormenores do combate. O seu desejo não demorou muito a ser satisfeito, dado que pouca quantidade de poção mágica coubera a cada conviva.

Também o Leão Beltrão, encantado com a derrota definitiva infligida ao seu rival, e convencido de que tudo se tratara de um plano de defesa sabiamente arquitectado pela Cientista Real, insistia em que esta lhe contasse os detalhes.

Mas a Girafa, matreira, apenas sorria, adoptando um ar misterioso. De que serviria desfazer o mal-entendido, explicando ao rei que a retumbante vitória sobre o Tigrês se devera, afinal, ao criado trapalhão, que tão oportunamente servira a poção mágica aos convidados?

Já perto do amanhecer, quando a Girafa e o seu amigo regressavam a casa, a Cientista confidenciou:

- Sabes, Macaco Esperto, apanhei um valente susto quando percebi que os leões iam transformar-se em porcos-espinhos. Pensei que nos iam comer à ceia...

- Acredito! - disse o Macaco com uma careta bem-humorada. - Felizmente, acabou tudo em bem...aliás, como é costume...

O Macaco fez uma pausa e sorriu.

- Sempre tens muita sorte! - concluíu.

- Pois tenho! - concordou a Cientista, satisfeita.

E ambos desataram a rir, deixando as suas gargalhadas felizes ecoar pela noite na savana.

   
 
         
   

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FIM

         
   
© 1998-2001 - Ilona Bastos - Texto e Ilustração

Som de Fundo: Tchaikovsky, Quebra Nozes, Marcha