VII- A Girafa e a Vitória Final

2ª Parte

de

Ilona Bastos

 
                       
         
         
    Entusiasmada com o último resultado conseguido, a Girafa bateu palmas e quis abraçar o Macaco, ou melhor, o porco-espinho.

- Ai, ai, ui! - gritou a Girafa, agitando as patas dianteiras no ar. - Agora é que me picaste!

Isso significava que a invenção da Girafa era um sucesso. Pois que melhor arma haveria contra uma invasão das tropas do tigre Tigrês do que um exército de porcos-espinhos? Os invasores, quando pretendessem avançar, picar-se-iam a cada passo e acabariam por desisitir dos seus intentos.

O Macaco nada disse, o que a Girafa não estranhou, pois os porcos-espinhos têm fama de ser muito calados, e diz-se mesmo à boca fechada que nunca ninguém os ouviu contar anedotas, embora se riam que nem uns perdidos quando ouvem piadas sobre papagaios.

Bom, mas sisudo ou não o macaco transformado em porco-espinho era a pova provada de que a Cientista Real inventara para o seu soberano uma excelente arma de defesa.

Por isso, sem mais delongas, a Girafa pegou na garrafa onde cuidadosamente deitara a sua poção mágica e, seguida do porco-espinho, dirigiu-se para o castelo.

Acontece que, nessa noite, organizara o Leão Beltrão um banquete, destinado a reunir à sua mesa os monarcas dos territórios vizinhos, seus aliados contra as maldades do tigre Tigrês. Pretendia o Leão tornar mais fortes os laços que o uniam aos seus convidados, de forma a poder contar com o seu apoio quando o Tigrês atacasse.

Assim, quando a Girafa e o porco-espinho chegaram ao castelo, surpreendeu-os um ambiente de fausto e solenidade: perfilavam-se os guardas, na entrada; estendiam-se passadeiras vermelhas pela escadaria; e um zumzum de conversas e cochichos espalhava-se pelos corredores.

Julgando que a Cientista Real e o seu acompanhante eram convidados para o jantar, os soldados não se opuseram à sua entrada no castelo. E também eles não se fizeram rogados, avançando cheios de entusiasmo.

Só já ao fundo do corredor é que a Girafa tomou consciência de que não recebera convite para a festa, e hesitou. Pousou a garrafa com a poção mágica em cima de uma mesa e recomendou ao porco-espinho:

- Espera aqui, que eu vou ver se o rei nos recebe.

O porco-espinho arregalou os olhos, mas nada respondeu, começando a cheirinhar o chão, à procura de raízes para comer.

A Cientista Real aproximou-se, cautelosamente, da porta do enorme salão onde decorria o banquete. Ao fundo, à cabeceira da mesa, ostentando a sua coroa de ouro e diamantes, com o belo manto real sobre os ombros, o Beltrão erguia um copo de vinho para brindar, e os convidados, sentados de ambos os lados, acompanhavam-no, com boa-disposição.

À nossa vitória sobre o tigre Tigrês! - gritou o Rei, elevando o copo e bebendo-o de seguida.

- À nossa vitória! - repetiram os seus companheiros em uníssono, imitando-lhe o gesto, alegremente.

- Ora aqui está a Cientista Real! - exclamou o Rei, no mesmo tom eufórico, ao avistar a Girafa. - Aproxima-te, minha fiel súbdita, vem brindar connosco!

Embora atrevida, a Girafa não estava habituada a conviver com personagens de tanta importância, pelo que o convite do rei a deixou embaraçada.

- Majestade, venho aqui... - balbuciou ela.

- Vem brindar, vem brindar connosco! - repetiu o Leão Beltrão sem a deixar explicar. - Criado, traz mais vinho e serve os meus convidados.

A Girafa aproximou-se do rei, enquanto o criado, num rodopio, trouxe uma nova garrafa, abriu-a e distribuíu o seu conteúdo, de um belo tom dourado, por todos os copos.

- Brindemos com este precioso néctar! - exortou o rei. - Brindemos à nossa união, que nos tornará fortes e invencíveis!

E mais uma vez o Beltrão levou o seu copo de cristal à boca, rapidamente o esvaziando, no que foi seguido por todos, incluindo a Cientista Real, toda satisfeita com a honra de ser admitida a confraternizar com reis.

Só que a alegria da Girafa foi muito rapidamente substituída por um arrepio estonteante.

- Socorro! - murmurou ela, ao reconhecer, subitamente, a garrafa pousada, vazia, sobre a mesa. - Lá me meti eu noutro grande sarilho!

É que, na ânsia de dar cumprimento à ordem real, o criado pegara na garrafa que se encontrava em cima do móvel do corredor, ou seja, pegara no recipiente trazido pela Cientista com a sua poção mágica. Agora, o rei e os leões seus aliados transformar-se-iam em porcos-espinhos, o que certamente não lhes traria grande satisfação!

   
 
         
   

 

   

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A Girafa e a Vitória Final

3ªParte

         
   
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