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O Eléctrico de Natal |
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Uma História de Ilona Bastos
- Olh'ó eléctrico! Olh'ó eléctrico! - gritou o menino, excitado. E a mãe espantou-se: - Qual é a admiração, Júlio? Eléctricos há muitos! Mas o rapaz, agitado, puxava a mãe pelo braço, ao longo da Rua dos Fanqueiros. - Quero ir no eléctrico! A mãe voltou-se e percebeu. Todo engalanado de luzes e decorações natalícias, o eléctrico amarelo evoluía pela rua fora como um brinquedo gigante saído de um conto de fadas. O som dos cânticos de Natal invadia a rua, alegrando as pessoas que entravam e saíam das lojas, também elas enfeitadas para a quadra festiva. O menino não hesitou quando o carro passou junto dele, e, de um salto, arrastou a mãe para o veículo, tropeçando nos degraus. Lá dentro, uma claridade especial fez mãe e filho piscarem os olhos, enquanto o palhaço Aboborinha os convidava a sentarem-se, com patuscos gestos das suas mãos enluvadas. Espreitando pela janela emoldurada de branco, parecia a cidade coberta de neve. E dentro da carruagem os bancos de madeira envernizada brilhavam com o esplendor dos arraiais. Os palhaços contavam anedotas, torcendo a boca pintada, em enormes gargalhadas. O Júlio ria, também, como que hipnotizado. A mãe, olhando em redor, sentia-se novamente menina, feliz, ansiando pelos presentes que o Menino Jesus deixaria junto à chaminé. Lâmpadas de todas as cores salpicavam a noite, formando desenhos de anjos, laços e azevinhos esvoaçantes e, ao fim de tantos anos, as velhas ruas da baixa lisboeta voltavam a surgir à mãe do Júlio como caminhos encantados, onde todos eram felizes e só a Alegria e o Amor imperavam. Na Praça do Comércio, o eléctrico parou, e os palhaços, com grandes acenos e sorrisos, despediram-se dos passageiros, entregando-lhe, à saída, um embrulhinho surpresa. - Feliz Natal! Feliz Natal! - entoavam as crianças e o condutor. - Festas Felizes! Festas Felizes! - cantavam o Júlio e a mãe. E aquelas palavras, repetidas vezes sem fim, soavam como badaladas de um sino em dia de festa. O Júlio voltou a agarrar o braço da mãe, desta vez para a levar até uma loja de brinquedos, onde um Pai Natal risonho guiava as suas renas pelo azul dos céus. A mãe seguiu o filho contrariada, sem desprender o olhar do eléctrico de Natal, onde um novo grupo de crianças iniciava o seu passeio. Malicioso, o Júlio soltou uma gargalhada: - Então, mãe! Eléctricos há muitos! |
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