CONTOS DE

ILONA BASTOS

 

CRÓNICAS E CONTOS
A ENTREVISTA

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CLAIRE

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Ouve! Estás interessado em saber os pormenores da minha aventura desta manhã? Compreendo perfeitamente a tua incontida ânsia, mas por favor não saltes na cadeira! Vou contar-te tudo o que se passou…

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Depois de te telefonar, logo cedo, tomei o pequeno-almoço, vesti a gabardina e saí para a rua. Ia preocupadíssima com a entrevista, como deves calcular. Mal dormira durante a noite, revendo mentalmente os pontos altos do meu curriculum e ensaiando respostas inteligentes para as perguntas que eventualmente me pudessem colocar. Agora, sobre a hora, sentia-me confusa e assustada.

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Caminhei pelo passeio, um pouco atabalhoadamente, e tentei deter dois ou três táxis, que simplesmente ignoraram os meus apelos. Evidentemente, principiei a entrar em pânico quando percebi que a antecedência, tão minuciosamente calculada, com que deveria partir para alcançar pontualmente o meu destino, começava gradualmente a esgotar-se. E, para cúmulo, o trânsito estava completamente engarrafado!

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Desatei, literalmente, a correr, o que se mostrou pouco eficaz. Ao fim de alguns metros tive que desistir, esbaforida, derreada. Voltei a andar, rapidamente. Mas ao passar pela montra de um stand de automóveis vislumbrei, num repente, a minha imagem, e tomei consciência de quão ridícula parecia, no esforço de ganhar velocidade, inclinando-me — cabeça, pescoço e tronco —, obstinadamente, para a frente, como se dessa forma pudesse chegar mais depressa a lugar algum.

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Ouvi, então, uma buzina forte, a que se seguiu uma completa orquestra de outras buzinas, igualmente desagradáveis e estridentes. Surgiam já gritos e impropérios, quando recomeçou a chover, desta vez torrencialmente, com rajadas de granizo a bombardear a calçada.

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Abriguei-me na porta de um edifício, esperando uma aberta para retomar o caminho. Pessoas passavam a correr, por vezes cobrindo a cabeça com jornais ou pastas. A rua e os automóveis tinham-se tornado cinzentos, de contornos esbatidos, enquanto as árvores, ao fundo da rua, por contraste, sobressaíam brilhantes, assumindo novo colorido e perspectiva. Isso pareceu-me ilógico e, distraída, discorrendo sobre o assunto, meti-me ao temporal, debaixo do chapéu-de-chuva.

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Entregue a tais pensamentos, atravessei a rua e novamente me deixei surpreender pelo reflexo da minha imagem na montra do stand de automóveis. Parei e, sem perceber como, dei comigo a pensar:

“Que estranho é ser eu!”

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Agradou-me a ideia, sorri e recomecei a andar. Agradava-me também, caminhar, ali, naquele instante.

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“Que estranho é ser eu!”, repeti, saboreando o pensamento.

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Era estranho ser eu, e era ainda mais estranha aquela frase que eu não conseguia esquecer, nem explicar, por resultar de uma sensação súbita, do abandonar-me a mim própria, durante momentos, para me encarar da terra dos outros. E, então, assim avistada, eu era estranha, qual personagem de um filme: uma criatura esbranquiçada, envolta numa enorme gabardina azul, entrando e saindo de edifícios anónimos, semelhantes no seu aspecto e estrutura, mas recheados de diferentes gentes; bebendo-lhes os sentimentos e as imagens, para depressa os esquecer numa passada larga pela calçada, debaixo de um chapéu-de-chuva, rodeada pelo abraço de uma cortina protectora de gotas potentes e projécteis de gelo!

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Alguns quarteirões adiante, sustive o passo e voltei a encontrar-me na vitrina de uma pastelaria. Novamente sorri.

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“É estranho ser eu!”, insisti, espantada por com esse pensamento me sentir mais eu do que nunca.

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Dentro da ampla gabardina azul que se me enrodilhava nas calças também azuis, húmida da cabeça aos pés, encontrei o coração e os olhos frescos, livres, ferreamente decididos.

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Com surpreendente firmeza, com uma vontade que me pareceu inabalável, avancei solidamente pela calçada.

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Invadi o prédio imponente, ignorando o rasto de água que me jorrava do chapéu-de-chuva e do vestuário. Galguei os degraus, agrupados em lanços, desprezando os patamares, que não levavam a lado nenhum. Empurrei sem hesitar a porta de vidro, e à empregada da recepção anunciei-me, importante, para a entrevista aprazada. Precedi-a no corredor, até ao gabinete pequeno com uma mesa de vidro e um júri de três cavalheiros. Cumprimentei-os, sobranceira, mas amabilizei a conversa com pancadinhas nas costas. Expliquei-lhes ao que ia e interroguei-os.

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Inquiri um a um, com calma estudada e simpática atenção. Ao primeiro, de óculos, pálido e de feição miúda, porque tímido e retraído, para não o assustar, indaguei das características do emprego que tinha para me oferecer. Ao segundo, mais rosado e bem nutrido, cabelo a escassear, sugeri, com simpatia, que dissertasse sobre o ordenado e as regalias sociais envolvidas. Ao terceiro, bonacheirão, de risíveis patilhas alouradas, confiei banalidades, a troco de detalhada descrição do gabinete amplo e confortável que me seria destinado.

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No final, perante tão evidente ansiedade, guardei silêncio por apenas dois minutos. E, então, para me portar à minha altura, ergui-me, cumprimentei-os e anunciei:

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“Muito bem, meus senhores, convenceram-me! Aceito o lugar. Estão contentes?”. Ainda acrescentei, com bonomia: “Afinal não havia razão para tanto sobressalto, não é verdade?”

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Já na rua, percebi que parara de chover e abanei ligeiramente o guarda-chuva, para o aliviar de alguma água. Desabotoei dois botões da gabardina e retomei o meu caminho. Olhei-me, benévola, satisfeita comigo própria, em paz.

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Bendito o meu olhar complacente, que, conivente, me aprova, me afaga e me inunda desta estranha felicidade!

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Pintura de Goya

Mais recente actualização: 6 de Janeiro de 2005