ANÕES E GIGANTES

de Ilona Bastos

          

Era uma vez um anão muito mau.

Não tinha mais de um metro de altura e pertencia a uma família de anões muito estimada e respeitada na região.

Também a ele acarinhavam, ignorando a sua maldade.

Contudo, durante a noite, à socapa, o anão levantava-se da cama, colocava umas andas que guardava no celeiro, a elas atava um par de enormes socas que pendiam das paredes da casa (um presente oferecido, por brincadeira, a seus pais), e de andas e socas caminhava pelos campos vizinhos, esmigalhando as colheitas, revolvendo as terras, tudo destruindo à sua passagem.

De manhã, os camponeses, ao verem o estado dos seus campos, desesperavam, arrepelando os cabelos, berrando de faces coradas, chorando grossas lágrimas que lhes escorriam pelas bochechas abaixo.

Em virtude de tais acontecimentos, criou-se por essa altura a lenda de que existia nas montanhas um terrível gigante que à noite descia para arrasar os campos.

E a população ficou apavorada.

Não contente com isso, o anão continuou com as suas maldades.

Incentivado pela história do gigante, fabricou em segredo umas enormes asas, com as quais se fez planar do pico mais alto, sobrevoando telhados pela surdina da noite, partindo chaminés e antenas de televisão, avariando o relógio da torre da igreja e quebrando galhos das copas das árvores centenárias que, assim decepadas, passaram a assemelhar-se a soldados de cabeça rapada.

Aos que um vulto negro e voador haviam descortinado na escuridão da noite, surgiu a convicção de que um novo monstro, um grande morcego, acompanhava o gigante nas suas malditas tropelias.

E à conta da ideia do morcego, lembrou-se o anão de invadir os galinheiros, causando alarido imenso, matando as aves que por perto lhe chegavam, e escapulindo, sorrateiro, sem que o conseguissem apanhar.

Imagine-se que pandemónio não se gerou na povoação, perante tantos e tão misteriosos estragos: eram os campos devastados, as construções e as árvores destruídas, as aves mortas ou assustadas!

Que diabo passara pela cabeça daquele anão tão cruel!

E, para cúmulo, ninguém desconfiava de nada, motivo por que todos o tratavam bem e consideravam.

 

 

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ANÕES E GIGANTES

de Ilona Bastos

pág.2

Mas houve um garoto ladino que uma noite resolveu pôr-se de atalaia.

Saiu da cama, saltou pela janela e instalou-se no telhado, junto à chaminé.

Assim posicionado, não o avistou o anão, que nessa noite resolveu voltar à suas ruins actividades.

O rapaz viu-o, com as andas, a destruir um campo de milho, e reconheceu-o.

No dia seguinte, tentou contar ao irmão, mas ele não acreditou, tomou a confidência por piada e ainda se riu a valer.

Perante tal reacção, o rapaz calou-se e, na noite seguinte, voltou para o seu posto de vigia.

Nessa noite, o anão subiu à montanha, envergando as suas enormes asas, e de lá se atirou, sobrevoando as casas e as ruas, à sua passagem levantando telhados, arrastando chaminés e estendais.

Mais uma vez, o rapaz viu-o e reconheceu-o.

No dia seguinte, procurou contar aos pais, mas eles não acreditaram e ainda o repreenderam por andar a inventar mentiras sobre uma pessoa inocente.

Na verdade, durante o dia o anão comportava-se de forma exemplar, e de tal modo era afável o seu trato que se apresentou como candidato à administração da região.

Uma terceira noite o garoto vigiou, reconheceu o anão, e, escondido nas sombras, seguiu-o no seu percurso pelos quintais vizinhos, onde devassou os galinheiros.

Na cidade realizou-se, por esses dias, um grande comício, fazendo-se campanha para a eleição do novo administrador, e o anão não regateava cumprimentos, sorrisos e até beijos e abraços às crianças e às velhinhas.

Depois, subiu a um estrado, de onde lançou um discurso eloquente.

Que bem falava o anão, todo inchado, pronunciando palavras bonitas que encantavam a multidão!

Prometia defender a cidade dos monstros que a ameaçavam: do gigante, do vampiro e até do lobisomem!

E todos o ovacionavam, em delírio.

Sim senhor, aquele é que era um candidato de peso!

Apesar da sua pequena estatura, tinha coragem com fartura, e nele depositaria o povo a sua confiança e o seu voto.

Ora o rapaz também assistia ao comício, mas quando os outros acenavam com a cabeça, em sinal de aprovação, ele cerrava os dentes, com fúria; quando o povo aplaudia, manifestando concordância, ele batia o pé, cheio de raiva; quando à sua volta se ouviam palavras de apoio ao orador, ele vociferava, colérico.

E tal era a prosápia do anão, gabando-se, pavoneando-se, prometendo mundos e fundos, que o rapaz não conseguiu conter-se.

 

 

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ANÕES E GIGANTES

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           pág.3

Galgou os degraus que levavam ao palco e anunciou à multidão que o anão era o causador de todas as desgraças que assolavam a cidade.

Mas, o que foi ele fazer!

A população não acreditou numa única das suas palavras, desatou a invectivá-lo, e finalmente acusou-o de difamação e injúria e de desejar tão somente afastar o anão da eleição.

Nestes casos, as multidões costumam ser impetuosas, e logo dois ou três cidadãos, dos mais altos e robustos, agarraram o rapaz pelos braços e levaram-no ao juiz.

O anão ainda tentou passar despercebido, escapar pela parte traseira do palco, mas os seus fervorosos apoiantes interpretaram a covardia como humildade, e encaminharam-no também ao tribunal, a fim de ser limpa, de imediato, a sua honra tão injustamente maculada.

Os anões familiares do anão cruel, sendo bons e honestos, não puderam crer no que tinham ouvido, e rodearam o seu parente para o amparar nesse momento de agravo.

A família do rapaz insurgiu-se contra a leviandade da sua conduta, aconselhando-o a dar o dito por não dito e a pedir perdão ao anão por tão impertinente atitude.

Ordenou o pai ao filho:

- Rapaz, cala essa boca que só diz asneiras e pede desculpa pelas aleivosias que proferiste!

Mas o rapaz respondeu-lhe:

- Pai, confia em mim, vai ao celeiro do anão e traz as andas que lá estão guardadas.

A mãe insistiu:

- Meu filho, mostra arrependimento e diz que brincavas!

Porém, o rapaz pediu-lhe:

- Mãe, não percas tempo, vai à casa do anão e procura as socas que pendem nas paredes.

O irmão irritou-se:

- Acaba com essa conversa ou ainda vais parar à prisão!

O rapaz sussurrou-lhe:

- Depressa, corre ao alto do monte e carrega as asas que lá se escondem.

Entretanto, a multidão irrompeu pelo tribunal e pediu ao juiz que prendesse rapidamente aquele rapaz que se atrevia a difamar o salvador da cidade.

E o juiz, que estava sentado à sua secretária a estudar os grandes livros das leis, ordenou ao escrivão que abrisse a porta da sala de audiências para que a multidão entrasse e para que as partes envolvidas (o anão e o rapaz) se sentassem, cada uma do seu lado, ao topo do aposento.

O juiz vestiu a sua beca - uma longa veste preta, que lhe conferia um aspecto solene - avançou para o seu lugar, na presidência da grande mesa, e anunciou o início do julgamento.

 

 

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ANÕES E GIGANTES

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           pág.4

 

Começou por dar a palavra ao anão.

Perante o juiz e o povo da cidade, o anão levantou-se, trepou para cima da cadeira, ganhando altura, e uma vez mais lançou mão dos seus dotes de oratória.

Em tom magoado, começou a lamentar-se de que, por ser bom, justo e corajoso, e por desejar servir os seus concidadãos, se candidatara às eleições, mas que o rapaz, por despeito ou desrespeito - o que ao fim e ao cabo era igualmente vil - atrevera-se a acusá-lo, cara a cara e frente à multidão, de actos tão bárbaros que a todos chocavam.

O anão fez uma vénia exagerada, desceu da cadeira e sentou-se.

O juiz convidou o queixoso a apresentar provas de tão desonroso comportamento por parte do acusado e do infundado das afirmações que fizera.

E de imediato o tumulto se instalou no tribunal, pois todos queriam ser testemunhas, todos declaravam que sabiam, que depunham, que juravam se preciso fosse...

Tendo o juiz de apelar à calma, martelou na mesa e impôs o silêncio.

Voltou-se, depois, para o rapaz que, vermelho de irritação e desespero, não deixava de fitar a porta da sala.

- Que o acusado se pronuncie, querendo, em sua defesa. - declarou o juiz solenemente.

Queria ele dizer, na sua, que era a vez do rapaz se defender das acusações do anão.

E ele assim fez:

- Meritíssimo juiz, pouco tenho a dizer, pois a verdade é só uma e é simples e clara como a água: a realidade é que não existe nenhum gigante, nem morcego, nem lobisomem comedor de galinhas; quem tem destruído e matado tem sido o anão, que é um indivíduo cruel e ávido de poder e riqueza, ao contrário dos seus parentes, que tanto têm contribuído para o bem desta cidade.

- O que afirmas é muito grave - disse o juiz. - Tens provas?

O rapaz olhou uma vez mais para a porta, em grande aflição.

O suor escorria-lhe do cabelo para a cara e desta para o pescoço.

O juiz insistiu:

- Tens provas, meu rapaz? Apresenta-as!

Se é certo que anteriormente a assistência fora ruidosa, agora silenciava perante a gravidade do acto.

E então, inesperadamente, um barulho estranho e complicado fez-se ouvir, proveniente do exterior.

O rapaz sorriu, aliviado, reconhecendo os sons do rodar da carroça do pai e do zurrar do burro, sempre desagradado do trabalho de a puxar.

- As provas vêm aí, Excelência.

- Pois que entrem! - determinou o juiz.

O escrivão correu pela sala fora, de capa esvoaçante.

 

 

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           pág.5

 

A multidão torceu o pescoço, com curiosidade, na direcção da porta do fundo.

O funcionário saiu, mas pouco depois reapareceu, embaraçado, abrindo os braços.

- Senhor doutor juiz, nem as provas, nem a carroça e o burro cabem na sala...

O povo murmurou: “A testemunha é um burro?!”

- Não admitirá Vossa Excelência um burro a depor! - exclamou o anão, ironicamente, usando daquele tom que sabia impressionar as multidões.

A assistência riu, mas o juiz manteve-se sério.

- Não seria a primeira vez - afirmou.

Observou o acusado, cujo olhar brilhante denunciava ansiedade, e decidiu:

- Se as provas não cabem na sala de audiências, a audiência prossegue no jardim. Façam o favor de sair.

A população nunca tinha assistido a semelhante coisa: um julgamento no jardim!

Acontece que o tribunal era circundado por um belíssimo jardim, onde o próprio juiz, nos seus momentos de lazer, se dedicava a cultivar plantas e árvores que floresciam e frutificavam ao longo de todo o ano, mantendo sempre um aspecto encantador e inundando o ar de um aroma delicioso.

No jardim havia bancos de pedra, em que muitas vezes o juiz se sentava a estudar os casos que julgava, e havia carreiros por onde o juiz caminhava, mentalmente decidindo a quem cabia a razão e de que lado estavam a Verdade e a Justiça.

Ora, nesse dia, o tempo estava magnífico, o céu, de um azul sem par, e a temperatura esplêndida para uma permanência no jardim.

Com passos firmes, o juiz dirigiu-se ao relvado central, sentou-se num banco de mármore, recomendou ao povo que não pisasse os canteiros nem as plantas, e ordenou ao escrivão que trouxesse as provas.

Novamente o escrivão se lançou a correr, como uma borboleta desajeitada de negras asas brilhantes.

Depois regressou, todo curvado sob o peso de uma anda, e acompanhado do pai do rapaz, que trazia o respectivo par.

- O que trazeis? - perguntou o juiz.

O homenzinho atrapalhou-se.

- São duas andas, Meritíssimo.

- E onde as encontraste?

- Foi no celeiro do senhor candidato anão.

- Estou a ver - disse o juiz, acenando com a cabeça e voltando-se para o rapaz. - Podes explicar agora o que significam estas andas?

 

 

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           pág.6

 

- Significam que o anão se torna num gigante quando as coloca e com elas percorre os campos pela calada da noite - esclareceu o rapaz, deixando a multidão boquiaberta.

O juiz ordenou que trouxessem as outras provas, se as houvesse, e lá voou o escrivão pelo jardim fora, regressando mais tarde na companhia da mãe do rapaz.

Cada um deles transportava uma soca gigantesca.

- E isto, do que se trata? - perguntou o juiz.

- São duas socas gigantes - respondeu a mulherzinha, cansada.

- E onde as encontraste?

- Foi nas paredes da casa do senhor candidato anão.

- Muito interessante! - comentou o juiz, voltando a dar a palavra ao rapaz, que se prontificou a explicar:

- Encaixando as socas nas andas, o anão calcava os campos, remexia a terra e destruía as culturas.

O semblante do juiz tornou-se mais severo, e indagou:

-Há mais provas?

O escrivão acenou que sim e voltou a afastar-se, pelo carreiro.

Desta vez passou algum tempo até que o funcionário do tribunal aparecesse, juntamente com o irmão do rapaz.

Carregavam umas enormes asas negras, feitas de oleado da mesma cor, esticado sobre uma armação de madeira.

Foi necessária perícia para que as pontas do objecto não ferissem a multidão, que de pronto se afastou, abafando um grito de espanto.

Muito cuidado foi aplicado para que também os ramos das árvores não ficassem mutilados, nem os ninhos perfurados, nem as pétalas das flores amachucadas.

Finalmente, as grandes asas foram depositadas no chão, ao lado das andas e das socas, perante o juiz.

- São asas, portanto - constatou o juiz. - Onde as encontraste?

- Foi no alto do monte, em ampla clareira situada nas terras pertencentes ao candidato anão - respondeu o irmão do rapaz.

- E estas asas servem para voar, não é verdade? - interrogou o juiz, dirigindo-se ao garoto.

- Exactamente, Meritíssimo, com elas o anão lançava-se do pico mais alto, em voo rasante sobre a cidade, destelhando casas, derrubando antenas e chaminés, danificando árvores e estendais.

O povo não continha a sua revolta, e o anão parecia agora mais pequeno do que nunca, encolhido na cadeira, de tal modo que só o batatudo nariz se vislumbrava e também os lacrimejantes olhos meio escondidos por detrás de uma melena desgrenhada.

O pânico apoderara-se do candidato anão, por ver deste modo desvendado o seu segredo.

Mas o juiz ignorava-o, concentrando a sua atenção no rapaz.

- E o lobisomem devorador de galinhas?

 

 

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ANÕES E GIGANTES

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           pág.7

 

Mais descontraído, o garoto sorriu.

- Era também o anão, escondido nas sombras, que penetrava nos quintais e assaltava os galinheiros.

- Tens provas desse facto? - inquiriu o juiz.

O escrivão e a família do rapaz olharam-no, apreensivos, abanando as mãos para mostrar que mais provas não possuíam.

Foi então que o sorriso inicial deu lugar a uma gargalhada, à medida que o garoto metia a mão no bolso das calças e de lá retirava um canivete proeminente, com cabo de marfim e letras gravadas.

- Este, perdeu-o o anão no seu último assalto, e recuperei-o eu, porque o seguia com a finalidade de denunciar os seus crimes.

Entregou o canivete ao juiz, que confirmou o nome do anão no objecto.

Um burburinho medonho ergueu-se, pois desejava agora a multidão castigar o verdadeiro culpado.

O juiz mais uma vez impôs a ordem e mandou que o anão fosse detido e levado para a prisão, após o que seria julgado e, certamente, condenado.

Quanto ao ali acusado, decidiu, em sentença, a sua total absolvição, louvando ainda a iniciativa e coragem que demonstrara, e a inteligência e honestidade com que desmascarara o indivíduo causador de tanto mal à cidade.

O povo tomou o rapaz nos braços, ergueu-o alto, cantando vitória, e do jardim o levou para as ruas em festa.

O juiz sorriu, pela primeira e última vez nesse dia.

Fechou o grande livro das leis que sempre o acompanhava e pronunciou:

- Esta encerrada a audiência!

De regresso ao tribunal, parou para ouvir um pardal, que do ramo de uma árvore para ele voltava a grácil cabecinha, piando enfaticamente, em prolongado discurso, apelando, sem dúvida, a mais um acto de Justiça.

 

Fim

 

 

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